Ela apagava agora seu cigarro.
Lucy, como era chamada no tempo de infância por sua avó, já não era mais aquela criança doce que corria pelos campos cheios de morangos e amava seu primo em segredo, era uma mulher, agora. Uma mulher com problemas, problemas que não sabia lidar.
A inocência da infância se perdera junto com a esperança e toda a fé que tinha em si mesma. O desespero batia à sua porta, e a cada segundo ela parecia mais decidida a se entregar. Mas, se entregar ao quê? Não havia nada a que pudesse se entregar, ela não conseguiria se entregar mais do que já havia feito.
Lucy agora possuía cicatrizes, achava que assim poderia, talvez, aliviar sua tristeza ou, até mesmo, expressá-la. Aquilo já não era o bastante, seus olhos vermelhos e inchados, seu sangue impuro... tudo em seu corpo parecia pedir mais.
Um apartamento bagunçado, lembranças da infância, lembranças de onde tudo começou: Lucy era filha de um fazendeiro muito rico, muito conhecido naquela cidadezinha pequena, todos o achavam um bom homem, todos que não o conheciam de perto.
Anna, mãe de Lucy, era uma mulher delicada e dedicada que amava sua filha e a colocava acima de qualquer pessoa. Possuía uma pele incrivelmente branca, os cabelos compridos, negros e lisos, seus olhos pareciam poder penetrar na alma de qualquer um, até mesmo de Augusto, seu marido.
Lucy, agora, entendia por que Anna levava manchas em seu corpo. Não gostava de lembrar, de sentir outra vez a perda da mãe, não gostava de lembrar o porquê Lucy se transformou, mais cedo, em mulher.
Caminhou devagar até a janela, como se não quisesse ser ouvida, chovia muito naquele dia. Parecia que a cidade estava sofrendo como Lucy.
Ficou observando por um instante, não conseguia enxergar a felicidade sequer nos olhos de uma criança que também a observava do interior de um carro, a criança se apoiava nos vidros e deu um sorriso tímido, como se temesse a reação de Lucy. Seu corpo inteiro arrepiou, sentiu algo estranho na coluna, a última vez que se sentira assim foi aos quinze anos, quando seu primo a beijara pela primeira vez, mas aquele sorriso... aquele sorriso era, sem dúvida, melhor.
Sorriu, então para a criança e percebeu que uma lágrima escorria, já não chorava há muito. Segundos depois, se pegou jogada ao chão, chorando compulsivamente, não entendia o porquê daquilo, mas não se importava, razão era algo que ela não buscava mais. O batom vermelho manchava agora o carpete e ia, aos poucos, deixando sua boca.
Ela se agarrava ao chão, como se quisesse ir mais fundo, como se quisesse se separar do mundo para sempre. Aquilo com certeza doía mais do que qualquer outra dor que já tivesse sentido, doía por dentro, era como se estivesse vendo a Lucy que sua avó amava no corpo de outra criança, separada de vez daquela mulher que sentia vergonha em ser, mas que não conseguia se livar.
Passou horas pensando em tudo que seu pai havia lhe dito, em todas as vezes que tentou dar fim em si mesma e em todas as vezes que ele a havia feito chorar... Foi vencida pelo cansaço, ficou, então, deitada no escuro.
Olhava para o teto fixamente, como se quisesse que ele abrisse e mostrasse um caminho a seguir, algo que a fizesse esquecer de todas as dores, de todos os erros, de todas as coisas ruins que ela já havia feito.
Ela soube que não poderia consertar e esquecer seu passado, mas aquele sorriso a fez feliz por um segundo, uma alegria tão intensa e tão profunda, como nunca havia sentido.
Continuava a ser aquela mesma mulher que apagara o cigarro, mas possuía, agora, algo pra acreditar que sua vida não estava perdida.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
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